quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

O Paz de Alma

O Paz de Alma


Aquele senhor ali, de calva rosada e redonda, olhos pestanejantes de menino velho, bochechinhas caídas, da cor da calva, tem mesmo ar de boa pessoa. Uma jóia. Uma raridade. Um paz de alma. Todas as manhãs se senta à mesma mesa do nosso café do bairro e pede numa voz mansa, de palavras pronunciadas sílaba a sílaba:
- Se faz favor trazia-me uma meia de leite, mas não muito quente, acompanhada por um queque, de preferência ainda quentinho… E ri-se, suavemente, do seu capricho guloso.
Pois no outro dia, entrou um desconhecido de rompante, lá no café, que se dirigiu sem hesitação ao senhor, a meio da sua chávena meia de leite.
- O senhor é que é o Abílio Gomes, não é? - perguntou ele, de dedo apontado, com muito maus modos.
E sem esperar pela resposta, nem sequer dar tempo ao senhor para poisar a chávena, pregou-lhe uma bofetada de todo o tamanho e saiu disparado, tal como entrara. Esparramou-se o conteúdo da chávena, que se partiu mais o pires, no lajedo do café.
Eu, que estava perto, ainda apanhei uns salpicos.
Entretanto, o senhor, de bochechas muito mais rosadas do que o costume, mamava, imperturbável, o resto do queque, ensopado de café. Indignei-me:
- Então o senhor apanha uma bofetada destas e fica-se?
Acabando de engolir o queque, o senhor só respondeu:
- O caso não era comigo. Deve ter sido engano. Eu nem me chamo Abílio...

Autor: António Torrado

Retirado da História do Dia - Sapo Kids


Quando li esta história não pude deixar de pensar que se todos fossemos um bocadinho como esta personagem o mundo seria muito melhor. Se em vez de reagirmos como o agressor, que ainda sem ter a certeza se aquela era a pessoa que procurava o agrediu, reagíssemos mais como o "Paz de Alma", talvez evitássemos muitos conflitos. Verbais e emocionais. Porque quando pensamos que alguém teve determinada acção com o intuito de nos magoar acabamos tantas vezes por ficarmos magoados com isso. E somos capazes de andar dias a tentar entender o outro e tudo o que fazemos é aprofundar a mágoa. Em vez disso devíamos tentar falar, dialogar e ver que talvez não tenha tido a intenção de nos ferir. Que talvez a seta tenha vindo na direcção errada.

Alguns pensarão que somos cobardes, medrosos. Mas o que assim pensam, são, por norma, os agressores, aqueles que nem dão oportunidade ao outro de se defender. E não é a essa categoria de pessoas que eu quero pertencer. Eu prefiro ser da categoria dos "Paz de Alma". Embora nem sempre o consiga...

2 comentários:

Mamã da Rafa disse...

Admiro-te, dizes que nem sempre consegues ser assim, mas eu nunca consigo, não sou capaz de ficar calada perante injustiças, ou mesmo quando me tentam pisar. Já fui, durante a mior parte da minha vida, mudei, nem sei como ou porqê de há 5 anos para cá. Tenho o coração muito perto da boca agora, por vzes nm penso no que vou dizer, infelizmente:(((

Beijinhos com carinho

Mamã da Rafa disse...

Sorry *maior *porquê