Tenho um trabalho que gosto. Do trabalho em si! Dos colegas nem por isso. São pessoas muito diferentes de mim e não tenho afinidade por nenhum. Talvez por serem homens, mais velhos do que eu, tanto em idade como na firma, e que têm que acatar as minhas ordens porque sou eu que faço a gestão do trabalho ( em conformidade com os patrões). Com estes tenho uma boa relação mas do salário não gosto. Sei que tenho capacidade de fazer muito mais mas a estrutura é pequena e não tenho para onde evoluir. Queixo-me de tudo isto, mas normalmente apenas a mim própria.
Agora surgiu a possibilidade de tirar um curso, de outra área completamente oposta, na qual nunca me imaginei, mas que me daria a possibilidade de ter o meu próprio negócio. De poder trabalhar muito mais mas também ser recompensada por isso.
E agora não sei o que fazer. Não sei se serei capaz de fazer este tipo de trabalho. Sei que sou capaz de aprender, mas só isso talvez não chegue. E se eu não gostar do que vou fazer? Vou passar a vida a desempenhar um papel que não gosto? Posso tirar o curso e depois no estágio logo vejo. Mas é um curso de 2 anos em horário pós-laboral. Implica abdicar de estar com a minha família durante toda a semana. Chegarei a casa tarde e a B. já estará a dormir o que significa que a maior parte dos dias apenas a veja de manhã antes da escola. A juntar a isso está o custo do curso.
O que eu precisava era de ir ao futuro. De ver exactamente o que irá acontecer. Ou então que uma entidade superior, daquelas que têm a resposta certa para tudo (existem?) me disse-se o que fazer.
Tenho medo de estar a ser cobarde, comodista e depois vir a arrepender-me. Ao mesmo tempo tenho medo de não ser capaz de vencer a repulsa que sinto em relação aos outros. Sempre tive dificuldade em mexer no corpo (mãos, cabelos, etc) dos outros. Daqueles que me são mais próximos não tenho esse sentimento mas dos outros não consigo controlar. Será que me posso habituar? Ou será que apesar de boa ideia não é para mim? Não tenho perfil? Como saber?
No fundo acho que nunca tive uma vocação. Algo que eu soubesse que gostava de fazer. Fui para onde a maré, ou a vida, me levou. E agora que posso optar não sei o que fazer. E isto deixa-me angustiada. Por que não gosto de ser assim. E porque, a ter que mudar, deveria ser quanto mais cedo melhor. Porque os anos passam e as oportunidades também. E eu não sei o que fazer...